O cão

Andava sem coleira e sempre atrás do seu dono. Sua lenta caminhada já denunciava, de longe, a avançada idade. De perto, via-se o focinho branco, o olho mais caído do que o normal para a raça. Era baixo, gorducho, curioso. Sempre atravessava na faixa e obedecia aos comandos do seu dono – um senhor também.

A curiosidade me corroía sempre que avistava os dois. Tínhamos um forte desejo de ter um basset hound (no caso, uma), e ver um exemplar pelas ruas gerava simpatia e aumento da vontade. O tempo passou, nossa cachorrinha chegou. Já de idade também, fora abandonada e nós a adotamos. Os veterinários diziam que ela tinha 10 anos.

Uma manhã, peguei-me pensando naquele cão e em seu dono. Há muito não os via. “Se um dia eles passarem por mim, vou parar o senhor e perguntar quantos anos o cachorro tem”, pensei. A idade era uma sombra presente em nosso dia a dia, já que as estatísticas da raça apontavam para uma vida de apenas 12 anos. Nossa pequena tinha 10. Vai que o cãozinho esportista tinha 15? Não custava tentar.

Saí de casa com esses pensamentos e, cinco minutos depois, eles apareceram. Não hesitei.

– Olá, senhor, bom dia! O senhor pode me falar quantos anos ele tem?
– Hein?
– Oi! Quero saber quantos anos seu cachorro tem!
– Olha, faz 12 na semana que vem!
– Doze? Que maravilha! [“Ei, cãozinho, ei!” – Tentativas frustradas de fazê-lo cheirar a minha mão e olhar para mim. Idoso, só queria saber do chão.] Eu e meu noivo adotamos uma basset hound, dizem que ela tem 10 anos, foi abandonada na porta do canil municipal…
– Pois é, há pouco tempo mesmo achei um abandonado ali perto, tinha uns quatro anos.
– Nossa, coitadinho!
– É, não sei porque fazem isso. [Olha para o seu cachorro.] Não dá trabalho nenhum isso aí.

Eu, olhando para aquele senhor, que todo santo dia caminhava com seu basset hound idoso e que podia fazer o mais desatento (ou atento) pensar “Nossa, coitado, quanto trabalho ele tem passeando com o bicho!”, só pude concordar (lembrando com carinho da minha amada Adele, que já tinha passado diversos transtornos em hospitais, mas que alegrava e preenchia nossos dias):

– É, senhor, não dão trabalho nenhum.

 

autor-paloma-fiz-o-que-pude

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