Procurando [a nossa] Dory

Finalmente fui assistir ao esperado “Procurando Dory”. Confesso que, antes do lançamento do filme, curti e adorei aquela postagem polêmica no Facebook que pedia aos pais de crianças para não levarem seus filhos às sessões, já que nós, as crianças dos anos 90/2000, precisávamos aproveitar as aventuras da peixinha azul com toda a calma de quem esperou anos por isso. Ao ver as discussões, achei tudo um grande exagero – mas também vi que não é certo pedir que crianças não assistam a um filme tecnicamente voltado para elas.

Pois bem, lá fui eu e minha mãe – o programa infantil de domingo devia ser completo, com direito à mãe levando, pagando entrada… A pipoca é que ficou por minha conta, já que, fala sério, tenho idade, trabalho e devo dar um alívio para a matrona. Entramos atrasadas na sala (como sempre, a pipoca demorou a ficar pronta) e, obviamente, estava tudo lotado – de pais/responsáveis e suas crianças. Minha mãe suspirou: “Ai meu Deus…”. Eu nem liguei.

Tivemos que sentar na segunda fileira, eu ao lado de uma criança, ela de outra. Estava nos trailers. Eu e os pequenos rimos das situações. De repente, apareceu o castelo da Disney, naquela tradicional abertura, ao som de uma instrumental “When you wish upon a star…”. Na hora, a Paloma que há 20 anos sonha em conhecer aquele mundo pessoalmente teve seu súbito pensamento verbalizado pelo menino sentado ao lado da minha mãe: “Eu vou lá um dia!”. Não teve como não rir – e suspirar.

A verdade é que estar cercada de crianças não incomodou nem um pouco. Sabe por quê? Quando uma delas comentava “Olha, mãe, uma trrrilha [embolou no R] de conchas!”, lá no fundo de alguma parte do meu cérebro eu também fazia essa observação. A diferença, eu penso, de nós para elas, é que a sociedade vai nos tolhendo, podando nossa espontaneidade, fazendo com que nossos comentários, nossa narração íntima se reserve a ser isso – íntima. As crianças verbalizam. Esse é o incômodo do pessoal da postagem no Facebook. Mas será que essa verbalização, pela qual eu passei e espero que você também tenha passado, incomoda só pelo barulho ou é também pela espontaneidade ausente? Admirar o filme, interagindo com ele, comentando as cenas, ficando empolgado – uma infantilidade que nos falta muitas vezes na vida.

A “personalidade” mais importante que já passou aqui por nós uma vez disse aos seus companheiros (que talvez compartilhassem aquela publicação se estivessem aqui hoje): “Deixai que venham a mim as criancinhas.”. Acredito estar na hora de seguir essa frase, não somente ao pé da letra, mas sim buscar, dentro de nós, aquela criança adormecida, que se empolga com uma trrrilha de conchas e suspira com o castelo da princesa. A hora, nesse mundo tão conturbado, é de buscar a pureza que, talvez, está perdida – ou esquecida – em algum lugar. Este é o momento de procurar a nossa Dory – e continuar a nadar.

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