Corrida

Ao passar de ônibus por uma movimentada avenida da cidade, vi uma moça atravessando correndo um cruzamento perigoso. Eu mesma faço isso várias vezes, naquela pressa que insiste em não esperar o sinal ficar verde para o pedestre. O problema é que, nesse cruzamento, mal dá para ver se vem ou não carro; então, a alternativa é correr. A moça correu – mas não vinha carro nenhum.

Fiquei pensando naquela cena por todo o trajeto. Isso porque, em um primeiro momento, achei engraçado vê-la correndo por absolutamente… Nada. Porém, refleti: quantas vezes eu mesma devo ter passado por isso naquele mesmo cruzamento? Depois do riso e da autorreflexão, entretanto, veio algo mais denso: em quantos cruzamentos na vida a gente se vê correndo sem nem ao menos ter a certeza de que algo está vindo? E quantas corridas damos em vão?

Eu garanto já ter corrido em muitos deles. Aquele afobamento de ter que resolver algo que ainda não ocorreu – atitude típica dos diagnosticados com a famosa ansiedade. Quando entrei para esse time, algumas coisas passaram a fazer sentido em minha vida. Entendi a necessidade quase patológica de programar cada minuto do dia, da semana, dos anos que viriam. E quando o compasso descompassava… Ai, de mim! Que me colocava – e ainda coloco, confesso – um pouco, digamos, contrariada.

Passei a ver reflexos de ansiedade em todos os que me cercam, legitimando condutas como mera influência que se propaga desde a infância. Se ela existe, está certo, não há o que se fazer quanto ao passado. Contudo, pode-se mudar o porvir. O exercício não é fácil, admito. Lá se vai algum tempinho de terapia que prova o fato. Mas a recompensa, mesmo que não se note escancaradamente, chega – ainda que pela redução no número de decepções. Afinal, menos planejamentos, menos expectativas, menores as chances das rédeas se perderem, do outro (leia-se nossa expectativa) nos magoar.

Que tal começarmos esperando, no mínimo, o sinal do pedestre ficar verde? Se pararmos de correr nos cruzamentos da vida, ao menos não correremos mais o risco de nos tornarmos protagonistas dos momentos matutinos de observadores que utilizam o transporte coletivo urbano. E nem assunto de crônica.

 

autor-paloma-fiz-o-que-pude

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