3×4

Outro dia ouvi uma história engraçada e, ao mesmo tempo, estranha. Estava no ônibus (sempre ele!), indo para o trabalho; duas mulheres conversavam. Uma delas mostrou fotos de quando era, pelo teor da conversa, bem mais nova. Diante dos elogios da amiga, a mulher contou diversas histórias sobre cabelos, caras e bocas em fotos, até culminar no fato de que, quando jovem, rasgou sua carteira de trabalho intencionalmente por não ter gostado da foto. Foi lá e fez outra. Na época, achou a foto também feia e… Rasgou a carteira de novo. Está com a terceira. Diante dos risos da ouvinte, ela só dizia “Sabe como é, rasgou… Acidentes acontecem…”. Até eu ri.

Ainda no trajeto, peguei-me pensando na minha carteira de trabalho. A foto 3×4 que está nela é uma das minhas favoritas do gênero. Tanto que é a mesma da identidade, da carteira de motorista… Daí pensei: e se eu não tivesse gostado? No mínimo, ia viver sem querer olhar para “aquilo” (como no caso do meu passaporte, onde estou com a cabeça inclinada e com um olho maior do que o outro). Porém, mais do que pensar nisso, refleti: por que nossa imagem nos incomoda tanto?

Confesso que existem dias em que acordo com o cabelo tão estranho (a meu ver), que passo por espelhos coletivos e não ergo a cabeça para não me aborrecer. Sim, não quero me olhar. Mas será esse o autorreflexo mais importante que temos? E como anda nosso retrato interno? Se eu fosse fotografar meu estado de espírito, meu moral, minha índole, ou quem sabe meus pensamentos, teriam eles um olho menor que o outro? Uma cabeça inclinada? Ou pior – eu ia querer rasgar o resultado?

Tive um professor que – dizem –, ao presenciar uma aluna reclamando de uma 3×4 pessoal, afirmou, com certa incompreensão na voz: “Você reclama… Mas é você na foto!”. E não é que ele tinha razão? Até quando precisaremos que os outros nos mostrem nossos reflexos? “Ah, mas existem ângulos fotográficos provavelmente desconhecidos dos responsáveis pelas 3×4” você pode dizer. Concordo. Mas, sério. É só uma foto. Se de tudo não ficar boa, é só rasgar.

E será que dá para rasgar quem nós somos?

autor-paloma-fiz-o-que-pude

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